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{Texto: Rafael Bucco e Thomaz Gomes Fotos: Cia de Foto}
Leu a revista e ficou com vontade de conferir tudo o que ele disse? Confira abaixo o texto de tudo o que ele falou.
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Sua empresa, a holding Componente, tem um perfil bastante "low profile". As marcas aparecem muito mais do que a própria holding. Por quê?
A Componente é uma holding que abrange todos os meus negócios. A empresa existe há bastante tempo, mas começou a tomar esse papel de holding quando eu saí do Pão de Açúcar, em 2003, e passei a concentrar meus negócios embaixo dela. No começo era uma empresa que cuidava da parte administrativa dos meus negócios, que na época eram basicamente restaurantes. Chegou até a prestar serviços para outros restaurantes.
Mas você participa de uma rede de academias...
A Componente ficou sócia da empresa de academias, a Bodytech, que já tem várias academias no Rio e domina o mercado de lá. O [Alexandre] Accioly resolveu expandir para o Brasil inteiro e vir para São Paulo, que é o maior mercado do país no ramo. Aí fez muito sentido entrar como sócio. É uma parceria que está começando, estamos terminando de costurar, mas é um negócio que tem possibilidades de ser muito grande.
É você que tem as idéias, ou corre atrás das oportunidades? As pessoas vêm até você com as idéias?
Tem de tudo. Os negócios que dão mais certo são aqueles nos quais eu implemento minhas idéias. Há algum tempo estou meio parado nos investimentos. Desde a época de faculdade já queria ter meu negócio, em que pudesse mandar 100%. O Pão de Açúcar tem um lado muito legal, de ser uma empresa muito grande, onde você pode atuar em diferentes áreas. Mas frustra não ser o cara que está fazendo tudo. Você só toma decisões referentes à sua área. Sempre busquei um negócio onde pudesse me testar mais, para ver se eu era bom como empresário.
Comecei no ramo de fast-food, com o Mr. Fish, que tinha um negócio de sanduíches na Al. Lorena. Transformamos em fast-food, abrimos na praça de alimentação do Iguatemi. Achei que tinha tudo a ver montar um negócio lá, já que era algo bastante voltado ao público A. Foi super bem, crescemos muito, chegamos a ter cinco lojas. Aí eles quiseram implantar um plano de crescimento gigante, achei que não estávamos prontos, tivemos algumas discordâncias e acabei vendendo minha parte e saindo fora.
Qual era a sua idade nessa época?
Eu tinha uns 22, 23 anos. Sempre gostei de restaurantes, sempre me entusiasmei com esse ramo. Nessa época eu era um grande cliente do Dressing, que foi um dos primeiros restaurantes a ter buffet de saladas na hora do almoço, 20 anos atrás, e bombava. A rua Amauri ainda não era nada disso do que é hoje… Também era um grande cliente do Sérgio Cuisin e um belo dia ele falou: "Pô João, você gosta tanto dos meus restaurantes, não quer comprar um deles?". Respondi que comprar não, mas se você quiser ser sócio, eu fecho.
Tinha muita coisa que eu não sabia, vinha do ramo de fast-food, mas de restaurante não entendia tanto. Aí a gente fechou uma sociedade 50/50. Mas esse tipo de sociedade é bastante complicada. Eu só acredito em sociedade que você tem parcelas iguais ou que você tem um sócio minoritário e manda no negócio. No caso de parcelas iguais você testa se o seu sócio é bom mesmo. A gente dividia as tarefas, chamamos o João Armentano para reformar o Dressing inteiro, e de lá pra cá foi um sucesso, com quase 20 anos de sucesso. Desde que entrei acho que a coisa vai muito bem.
Seu ímpeto de empreender vêm da vontade de criar algo novo ou da necessidade de trabalhar com o que ama?
Acho que tem um pouco dos dois. Já tive uma fase, quando era mais novo, em que queria abraçar tudo. Analisava todos os projetos que me traziam e sentia uma angústia de querer participar de todos eles. Mas tem uma hora que você quer ter mais qualidade de vida.
Tenho dois filhos, sou apaixonado por eles, quero dedicar o máximo de tempo a eles. Tem uma hora que você quer ter prazer, ao invés de apenas trabalho. E ter prazer no trabalho. De um tempo para cá reduzi a quantidade de negócios que tenho para ficar apenas com os que tem a ver comigo e que me dão prazer. Lógico que uma das formas de prazer para mim é o retorno financeiro. Um negócio que dá prazer e não dá dinheiro não vale.
Aprendi que um negócio pequeno, como a revistaria da Amauri, que eu tenho, dá tanto trabalho quanto um negócio grande. Se você é o único gestor o trabalho é o mesmo. Por isso hoje em dia estou me concentrando em projetos grandes. Os pequenos que eu tenho já me dão muito prazer. Estou na Amauri, faz sentido pra mim ter esse tipo de negócios aqui, negócios "pequenos", como o Ecco, o Dressing, a Forneria, a Revistaria. O que eu tenho aqui eu quero desenvolver e tocar para frente. Esses negócios são meus, eu que tomo as decisões.
Mas é você quem toma conta mesmo? A ponto de acompanhar se o caixa fechou etc.?
Tenho pessoas que acompanham isso comigo. No Ecco e no Dressing o Sérgio Cuisin é meu sócio. No Dressing tenho 65% do restaurante e no Ecco eu e ele temos 51%. Apesar de termos vários sócios, nós dois mandamos em tudo. Os outros sócios não participam de nada.
No caso do Forneria é um pouco diferente. Quando eu entrei no grupo Fasano, o Rogério só tinha o Gero e o Fasano. Eu entrei e abrimos o Parigi, o Gero Café, o Armani Café, Hotel Fasano. Chegou uma hora que o Rogério queria tocar as coisas de um jeito e eu de outro. Achamos que seria melhor tomar caminhos diferentes e na separação com o Rogério, fiquei com os restaurantes que não tinham tanto a identidade da família. Eles nunca influenciaram muito na Forneria. O Rogério criou o produto, muito bem criado, mas é um negócio que ele não estava sempre à frente.
O que ali que é a sua cara?
Acho que em todos os meus projetos eu sempre opinei, dei palpites. Sinto que participei muito na criação. Aí na separação fez sentido manter as unidades de São Paulo e Rio de Janeiro. Era onde eu poderia crescer pois os outros restaurantes são a cara dele e da família, não dava para me envolver. No Hotel, eu era majoritário. Mas no começo do ano passado negociei a venda com a JHSF, que tinha muito bom relacionamento com o Rogério, e a coisa ficou muito bem casada. Acabei saindo de tudo dos hotéis. No início eles queriam comprar apenas o controle, e eu ficaria com 14%, mas com a opção de vender o resto, caso não tivesse mais nenhuma influência no negócio, e foi o que fiz em março desse ano.
E de tudo que você faz, gastronomia, energéticos, informática, fitness, o que te dá mais tesão no momento?
Quando eu assumi a Forneria, fiquei com 70% da Forneria, tinha mais dois sócios em São Paulo e mais o Accioly no Rio. Quis comprar tudo, para poder mexer, fazer do meu jeito em São Paulo. No Rio achei melhor deixar o Accioly com 30%, pois ele é a cara do Rio, e está lá, observando, cuidando, indo no local, apesar de não participar diretamente do operacional. Aqui em São Paulo, acabei tirando o sócio de 20% e deixei o outro, que era um primo meu, e queria continuar. Só que aquilo tem que ser cuidado de tudo, de A a Z. Aí eu trouxe a Denise, que é excelente, que trabalhava na parte de nutrição do Fasano, que hoje é minha gerente geral e toma conta da Forneria para mim. Agora estou montando uma equipe e estou me preparando para começar a expandir a partir do ano que vem.
Agora restaurante é um negócio que eu adoro, que me dá um muito tesão. Estava me preparando para parar, e aí aparece o negócio academia, que está me dando um puta tesão também, que tem tudo a ver comigo. Aí o Accioly e o Luiz Urquiza que é o presidente da empresa falaram: "Eu achava que você ia entrar de sócio e está trabalhando mais que a gente".
Você se considera um workaholic?
Gosto muito de trabalhar. É bom trabalhar com o que você gosta. Acho que herdei isso do meu pai. Acho que é muito importante, mas faço muito esporte também, várias vezes por dia. Gosto desse outro lado.
Já perdeu algum bom negócio por não conseguir abrir mão, passar pra frente um empreendimento?
Já. Mas cada vez mais você começa a pensar com a razão e ser um pouco mais frio. Mas lógico que acontece. Já deixei de participar de restaurantes que foram um grande sucesso e me arrependi. Mas também existem casos como o da Forneria Rio, que estava muito mal o ano passado, perdendo dinheiro. Eu pensei: vou conseguir mudar, fazer ter lucro. E reverteu. Estou conseguindo bancar as coisas que eu acho que tem chance. Mas, graças a Deus, não tem nada que eu saí e pensei: "Puta, que merda que eu fiz".
No caso da Kennex (empresa de informática), isso foi idéia sua?
Essa idéia não foi minha. Foi uma idéia muito boa do meu sócio, o Marcos Funaro, filho do Dilson Funaro, que era muito amigo do meu pai. Na verdade nosso negócio começou quando eu o procurei pra fazer a Revistaria. Na época eu tinha quatro restaurantes na rua Amauri e queria coisas diferentes para atrair gente, criar um mix. Aí tinha o estúdio do iG, que estava sendo desativado. Vi o espaço, liguei um som lá dentro, e percebi que tinha uma acústica maravilhosa. Aí já comecei a atropelar, fiz o projeto e busquei alguém que pudesse operar. De revista eu entendia um pouco, da época do Express (loja de conveniência nos postos Shell), que era do Pão de Acúcar, que eu tocava e tinha uma parte disso. Mas não entendia de CDs, DVDs. Aí chamei o Marcos, que era dono da Laser Home Vídeo, para me ajudar a operar isso. Ele me disse que estava atolado, mas que tinha outro projeto para me propor, que era o de computadores. Terminei tocando os primeiros dois anos da revistaria com o pessoal da Banana Music, do Iguatemi, e hoje tenho uma equipe que toca sozinha o negócio. O Marcos veio pela revistaria, e acabou surgindo o negócio dos computadores.
Mas foi algo instintivo? Você sentiu que era a hora certa de investir nesse mercado, que você ainda não conhecia direito?
Não conhecia nada, mas sentia que esse mercado ia bombar. Foi na hora certa, mas cometemos muitos erros também. Quando começamos éramos do tamanho da Positivo, que é vinte vezes maior que a gente hoje. Acho que faltaram algumas coisas na experiência, estamos caminhando. Estamos indo bem, mas acho que poderíamos ter ido mais longe. Hoje o mercado está mais difícil, todo mundo abriu o olho para o negócio, veio muita concorrência.
Aparentemente você não tem receio de se arriscar e dar a cara a tapa. Você tem medo de errar? Isso se deve a que?
Quando eu estou com uma idéia na cabeça, não tenho medo de errar. Isso pode não ser muito bom até… Já errei, já tive restaurantes que não deram certo. Graças a Deus tive mais acertos que erros até hoje. Mas com o tempo você termina sendo mais tranqüilo, menos impulsivo, não indo com tudo pra cima do negócio, pensando mais.
Em virtude de seu pai ser o presidente do Pão de Açúcar, você já pensou que se as coisas não dessem certo você poderia simplesmente voltar para o grupo? Como um porto seguro?
Não. Sempre pensei em ter os meus negócios paralelos, mas nunca havia pensado em abandonar meu pai, sair de lá. Mas quando profissionalizamos a empresa, fez todo o sentido sair. Apesar da minha paixão estar mais fora do que dentro. Acho que lá eu me apaixonava menos pelas coisas. Não pelo negócio, mas pelo fato de não conseguir abraçar o empreendimento como um todo. As coisas eram muito divididas. Não tinha o controle.
Falando assim, você soa como alguém centralizador. Você é um cara que quer ter o controle de tudo na empresa?
Não, mas eu quero ter o mínimo, no sentido de poder dar os rumos junto com os sócios. Gosto de influenciar no negócio, não gosto de trabalhar só colocando capital. Às vezes as pessoas pensam: "Ah, ele tem muito dinheiro, eu tenho uma idéia boa e ele vai entrar apenas como investidor". Não gosto de entrar apenas como investidor. Sou virginiano, gosto de cuidar dos detalhezinhos. Se não estiver tocando alteração, estou colaborando na parte de criação.
Você tem muitos negócios com pessoas do seu círculo de relacionamento pessoal. Isso pode atrapalhar, criar alguma situação delicada?
Acho que uma boa sociedade tem que ser boa profissional e socialmente. O sócio tem que ser bom o tempo todo. Você tem que escolher muito bem as pessoas.
Mas como escolher um bom sócio? Você teve alguma lição do seu pai, do seu avô, nesse aspecto?
Meu pai sempre disse: "Nunca tenha sócio, se tiver seja sempre majoritário!". Concordo com muitas opiniões dele, mas nessa eu discordo. Acho QUE PODE ter sócios meio-a-meio, depende muito da pessoa.
Minha sociedade com o Fasano durou dez anos e acabou, como negócio, infelizmente. Tem o lado ruim também. Não dá para ter a mesma cabeça da pessoa o tempo todo. Às vezes as pessoas mudam.
Quando você falou da Forneria, que você não desistiu, isso demonstra uma cultura de uma grande empresa. O que você aprendeu no Pão de Açúcar, na sua formação, que você leva para os negócios até hoje?
No ramo de restaurantes, são abertos 50 negócios por mês e fecham 49. Começou a dar errado e o cara fecha a porta. Bate o desespero e a pessoa já fecha, sem tentar mudar. Se você acredita na sua idéia, precisa insistir durante um tempo, maturar essa idéia. Sempre tem que ser uma coisa bem-pensada. Não dá para se desesperar no primeiro mês que a coisa dá errado
Mas isso talvez só funcione para uma holding. E para um empresário, que abriu apenas um restaurante, não é complicado para apertar o cinto nessa hora?
Tem que se tomar muito cuidado para não abrir um negócio do qual você dependa muito. É a sua vida, todo o seu capital. Procuro negócios em que não aconteça isso. Muito do meu capital está aqui na Componente, mas não tem nenhum negócio aqui que, se não der certo, fecha a empresa.
Quando você aparece nas colunas sociais, em restaurantes, você na verdade está trabalhando?
Desde o começo sempre misturei essa parte de trabalho e prazer. As pessoas acham que estou lá apenas conversando, encontrando os amigos, e aí eu vou lá, levanto, vou no canto e dou um esporro em um cara, volto. Estou sempre observando tudo, vendo o cara que não sentou, o garçom matando mosca, o prato que demorou pra sair, o carro que não chegou. Como é meu dia-adia, acabo acostumando. Sou muito crítico até em restaurantes que não são meus.
Quando isso atrapalha?
Atrapalha na hora que você quer comer em casa e fica pensando que tem que passar no restaurante para ver como as coisas estão. Nunca comi em casa. A geladeira só não fica vazia por causa de meus filhos, que ficam comigo pelo menos dois dias por semana e comem bastante. Como comida caseira apenas no fim de semana, quando vou para a praia, para a fazenda.
Entre vários empreendimentos, como você organiza seu dia-a-dia, tanto no trabalho, como no lazer?
Eu realmente não paro um minuto. Até no final de semana, saio de um esporte para outro. Não consigo desligar. Antigamente conseguia dormir quatro, cinco horas por noite, quando treinava direto. Hoje em dia não consigo mais, preciso de cerca de sete a oito horas de sono por dia.
Isso faz parte da sua personalidade, é uma característica sua, ou é algo que vêm da sua formação?
Tem muitas coisas que eu acho que aprendi e herdei do meu pai: esse aspecto de perseverança, determinação, estabelecer metas, ficar em cima até conseguir. Por um lado é ruim, pois você termina se cobrando demais. Mas com o tempo você vai relaxando, se soltando um pouco mais.
Mas você é tão pilhado que se precisar ligar para um sócio às 3 da manhã você liga?
Eu respeito, mas anoto e ligo no dia seguinte! (risos) Mas tenho um sócio mais pilhado que eu, que é o Acioly. O bicho é louco. Essas pessoas que estão comigo no negócio da academia são muito envolvidas, têm muito tesão no negocio. O presidente me passa emails às duas da manhã e eu falo: você é louco, vai dormir… As pessoas que trabalham comigo são assim. A Denise, da Forneria, eu encho saco dela, porque se deixar ela trabalha todo dia até meia noite. Brinco que o casamento dela vai terminar em menos de um ano. Mas acho que no final eu consigo administrar meu tempo. Pelo menos uma vez por dia eu tento fazer algum esporte, treinar. Tiro um dia por semana para descansar. Pelo menos seis dias por semana eu tenho que fazer algum esporte. E estou aprendendo a jogar golfe também.
Do jeito que você gosta de correr, o golfe não seria muito parado?
Costumo falar que o golfe não é um esporte, é um jogo. E é um jogo que você joga em um puta lugar maravilhoso, batendo papo com os amigos. E tem muita precisão. É um esporte difícil pra cacete. Tem um desafio. É muito gostoso.
Mas minha prioridade são meus filhos. Abro mão de qualquer coisa para fazer algo com eles. Sou separado, eles ficam comigo dois dias por semana, mas não consigo ficar um dia sem vê-los. Passo todos os dias na casa da mãe deles para encontrá-los.
Eles acompanham você nos esportes?
Eles estão começando. Têm 11 e 9 anos. O mais velho está começando a surfar, entra no mar comigo. Gosta de futebol. Mas futebol não tem nada a ver comigo. Sou o maior perna-de-pau.
E como os esportes te ajudam no mundo dos negócios?
O esporte dá força, faz você se testar o tempo todo, tem a ver com superação. No esporte não tem como fingir. Tem que chegar lá e fazer, dar o seu melhor. Não importa se você é rico, pobre, bonito ou feio. É um negócio que dá muita auto-confiança, que você leva pra vida inteira, para as outras coisas.
Há alguma coisa que seus pais sempre tentaram passar para você quando era criança para se tornar mais autônomo, mais independente?
Acho que sempre foi uma coisa indireta. Os filhos, na verdade, acabam observando exemplos. O que você fala termina entrando por um ouvido e saindo pelo outro. Meu pai, como 99% dos pais da geração dele, terminava trabalhando muito mais, dedicando menos tempo à família. Meu pai chegava em casa às 22h, 22h30 da noite. A gente terminava nem vendo ele. Acho que é muito mais pelo exemplo mesmo.
Você gostaria que seus filhos seguissem o mesmo caminho que o seu, tanto no profissional, como pessoal, ou nos esportes?
Acho que cada um tem seu caminho. Mas é claro que eu ficaria frustrado se meus filhos não gostassem de esportes. Mas vou ficar mais frustrado se eles não forem pessoas legais. Não sou um cara que fica em cima, falando que tem que fazer. Acho que não funciona. Mas é lógico que eu gostaria que eles fossem esportistas. Se eles vão ser, eu não sei.
E empreendedores? Gostaria que eles assumissem a Componente um dia?
Acho que sim. Mas são coisas que ainda não pensei. Mas seria legal… Se eles tocassem a vida deles, seria legal.
E sua mãe? Qual foi a influência que ela teve na sua formação, para você ser quem é hoje?
Acho que minha mãe me passou essa parte de serenidade. Às vezes eu acho que sou meio fechado, voltado para dentro. Essa parte tem muito a ver com ela, de pensar e tentar fazer as coisas com mais calma, embora muitas vezes eu não consiga ser assim.
E na sua opinião, quais são as características que formam um empreendedor de sucesso?
Vontade de fazer. Aliás, mais do que vontade de fazer, determinação na ação. Tem muita gente que tem muitas idéias, mas não põe a mão na massa.
Existe algum mercado do qual você gostaria de participar, mas não teve a oportunidade ainda? Um biz dos sonhos?
Não. Mas estou bastante empolgado com esse projeto das academias. Acho que tem muito a ver comigo. Foi uma coisa que sempre passou meio à margem. Nunca havia pensado nisso como negócio, até porque eu enxergava isso como uma atividade isolada. Acho que ter apenas uma academia não tem muito sentido, mas do modo que estamos montando, acho que tem um sentido grande.
Você já entrou em algum negócio com o qual não se identificava apenas pela oportunidade de retorno?
Já fiquei muito tentado, várias vezes, mas na hora H eu não entrei. Hoje em dia se o negócio não tem nada a ver comigo, eu nem olho. Para entrar no negócio, apenas ter mais um, não vale a pena. Meu tempo é tão pequeno para eu fazer minhas coisas que um negócio tem que ter muito sentido para a minha vida hoje.
Você acha que tem alguma vocação? Qual seria ela?
Tenho vocação para essa parte de prestar serviços. Identifico-me com esse negócio do corpo a corpo de atender o cliente. Servir de vários modos é algo que me atrai.
Como é você com seus funcionários? Você fala que dá esporro no cara que está pescando, mas fala que tem essa identificação com as pessoas. Você é paciente com os funcionários?
Isso do esporro eu falei meio que na brincadeira. Na verdade, eu muito mais converso do que dou esporro. Meus funcionários do Ecco estão comigo há dez anos, terminam virando amigos. Acho que quem trabalha comigo gosta. Gosto de criar o clima mais leve possível, tento fazer sempre o que puder fazer de melhor para quem está trabalhando bem. Acho que quem não está trabalhando bem tem que sair. Tento deixar o ambiente o mais agradável possível. Eu não sou o cara que dá o esporro, tá? Na verdade é o meu sócio que dá o esporro (risos). Mas lógico que chamo a atenção quando é necessário.
Mas quando você chega em um restaurante, existe um certo clima de tensão por que você está lá?
Não, pelo contrário, os caras brincam bastante comigo. Os caras folgam comigo para caralho…
Como é o relacionamento com vários sócios em negócios diferentes?
Já tive muito mais sócios do que tenho hoje. Fui adaptando meus negócios, tentei reduzir ao máximo o número de sócios, e dei preferência a quem tem identificação comigo. O relacionamento com sócio é sempre uma coisa difícil. Um ou outro sócio pode até ser fácil, mas meu caso é diferente.
Mas ocorre algum tipo de ciúmes, de alguém se sentir preterido? Como no caso da Forneria, ao qual que você tem dado mais atenção ultimamente?
Não. Na Forneria eu ainda estou montando uma estrutura que o Ecco e o Dressing já têm. Tenho 90% do negócio, tenho que fazer tudo. Mas eu sempre almoço no Ecco, por exemplo, tento estar presente em tudo. Às vezes os funcionários falam: "Pô, mas você não vem mais aqui no Dressing". Mas eu só almoço e janto uma vez por dia. Sem contar que me policio bastante para ir na concorrência, conhecer lugares novos. Não dá pra ficar só na Amaury.
Agora quando você chega na concorrência, você é um cara famoso, todo mundo sabe quem você é. Isso termina atrapalhando ou ajudando no biz?
Isso é engraçado, por quê eu não me considero um cara famoso. Mas acho que no ramo de restaurante eu sou muito respeitado. Mesmo o garçom que não me conhece, vem e me trata bem. Até por que todo mundo se conhece e sabe como eu lido com meu pessoal. Sinto-me bem quando vou na concorrência. Sem contar que eu sou muito amigo de muitos concorrentes. Adoro o Kosushi, vou direto lá, sou muito amigo do dono. Quase viramos sócios uma época. Quando vou num restaurante novo, sempre tem um cara que trabalhou pra mim, que é amigo, primo de um maitre.
Ser conhecido não abre a possibilidade de um sócio exigir mais de você, seu capital, por saber quem você é?
Acho que não. Se eu sinto que a pessoa está partindo por esse lado, já não é comigo. Pelo contrário, quero ser sócio de uma pessoa que defende meus interesses.
Você se sente pressionado a ter o mesmo sucesso que seu pai teve?
Não. Acho que o sucesso pode ser uma coisa menor. Eu tento seguir o exemplo dele. É legal ter o sucesso profissional, mas não me sinto cobrado de jeito nenhum.
Se a Componente nunca tiver o valor de mercado do Pão de Açúcar isso não seria problema pra você?
De jeito nenhum.
E como você vê o futuro da Componente?
Exuguei os negócios, diminui o número de sócios. Foquei em negócios grandes, ou ligados ao que me dá prazer, que é basicamente a rua Amauri. Se é negócio pequeno, é na Rua Amauri, senão, são negócios grandes. Acho que estou plantando e lógico que espero que o futuro seja brilhante, pois acredito muito nos segmentos que estou atuando. Tem coisas remanescentes de fases que eu investi muito, mas que eu achei que fazia sentido ficar. A Flying Horse, por exemplo, é algo que não está no meu foco, mas é um negócio pequeno, que eu investi muito dinheiro no passado. Acabei vendendo metade para um sócio que é do ramo, a Global Bev. Ali eu sou investidor, não toco nada, mas acho que está muito bem encaminhado. Tem a pousada, que é um negócio que é pequeno, um sucesso, mas que tem um question mark, de vamos fazer mais pousadas ou não. Mas no momento é algo que eu não sinto segurança para fazer. É um negócio que é pequeno, mas que vai ficar, pois tem muita rentabilidade.
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